Ceni nota chuteiras erradas de Wallace em estreia, e meia admite: "Só tenho essas"
16/04/2018 - 15h09 em Política

Rogério Ceni se comove com declaração de jogador e garante em coletiva após vitória sobre o Guarani: "Vamos providenciar uma chuteira com travas corretas para que ele não escorregue mais"
Eu ainda acho ele muito tímido, ele caiu demais durante o jogo. Na hora que eu entrei no vestiário, eu falei que ele estava jogando com a chuteira errada, mas ele disse: "Eu só tenho essa". Para você ver como é o futebol. Sempre têm pessoas humildes, bacanas. Vamos providenciar uma chuteira com travas corretas para que ele não escorregue mais."

 

Fortaleza venceu o Guarani na estreia da Série B (Foto: Thiago Gadelha/Agência Diário)

Fortaleza venceu o Guarani na estreia da Série B (Foto: Thiago Gadelha/Agência Diário)



A declaração é de Rogério Ceni, treinador do Fortaleza. O rapaz tímido supracitado se chama Wallace, tem apenas 19 anos e, oito dias depois de ser contratado, estreou num Campeonato Brasileiro. A chuteira em questão custou R$ 400,00. Travas de borracha. Em campo molhado, complica. O preço é razoável para um calçado de qualidade, como o próprio meia frisa. Salgado para o bolso, foi necessário parcelar no cartão da tia, em três vezes. Mas já está quitado, ele garante.

Revelação do Floresta no estadual, Wallace rabisca uma nova história com o Tricolor do Pici. O mundo é outro, diferente de quando era criança. Bem diferente de quando jogava bola, descalço, com os amigos no campinho em frente de casa. O acanhamento foi flagrante até durante a entrevista. Dono de frases curtas, o jogador preferiu a troca de mensagens em vez de um bate-papo por telefone. "Não gosto muito", confessou. Quando entra em campo, a inibição dá lugar à ousadia. E aí, quem se atreve a segurar?

Na última sexta-feira (13), Wallace teve sorte. Entrou em campo no segundo tempo, aos 33 minutos. No primeiro toque na bola, aos 37, o escorregão. A recuperação foi rápida para receber novamente a bola. Viu Edinho passando pela direita e deu o passe. Na sequência, Osvaldo recebeu na área e quase fez o segundo gol do Fortaleza. Wallace reclamou como quem diz: "Eu tava aqui, poxa!".


Wallace estreou pelo Fortaleza na Série B contra o Guarani (Foto: Pedro Chaves/Canal da Bola CE)

Wallace estreou pelo Fortaleza na Série B contra o Guarani (Foto: Pedro Chaves/Canal da Bola CE)

 

A bola é paixão antiga. Imagine só você, caro leitor. Acordar, sair pela porta de casa e se deparar com um campinho de futebol. É o sonho de toda criança que gosta do esporte. Pois assim, exatamente assim, foi a infância de Wallace.

- Moro na frente de um campo no bairro Genibaú. Não tinha como não jogar! Eu saía na rua e via o campo. É a única coisa que sei fazer. Minha mãe, para não me chamar de burro, diz que eu penso com as pernas - brincou o jogador.

O primeiro sonho foi o mesmo de milhões de crianças no mundo. Muitas desistem pelo caminho repleto de dificuldades. Não Wallace. Aos 13, tentou a sorte em São Paulo. Fez testes e mais testes em Palmeiras, Corinthians, Santos, Ituano, Primavera. A base foi toda no futebol de várzea paulista. Aos 18, voltou para casa. A saudade bateu.

- Sempre quis ser jogador de futebol. Eu sempre respirei futebol, sempre fui apaixonado, não importa como seja, só quero jogar! Uma frase que sempre falo: "independente de onde for, só quero jogar!" E por estar em um clube grande a motivação é muito maior - pontuou.


Wallace, em 2011, fez testes no Fortaleza (Foto: Arquivo Pessoal)

Wallace, em 2011, fez testes no Fortaleza (Foto: Arquivo Pessoal)

 

No Floresta, estreou contra o Fortaleza, num revés por 3 a 2. Foi o único jogo do estadual em que não usou as chuteiras com travas de borracha, aquelas de que Rogério Ceni reclamou. Em todos os demais jogos do Cearense, o par de chuteiras - único que Wallace possuía - calçou-lhe os pés. Com os calçados, o meia brilhou. Com eles, Wallace marcou dois gols na competição. Um contra o próprio Tricolor do Pici.

- Eu já entrei em campo (pelo Fortaleza, contra o Guarani) pensando nisso, que poderia escorregar. Pois pelo Floresta já tinha acontecido isso. Mas não tinha para onde correr, era a minha única opção - relembra.

"(Futebol) É a única coisa que sei fazer. Minha mãe, para não me chamar de burro, diz que eu penso com as pernas", diz Wallace, meia do Fortalez


Wallace quando ainda jogava pelo Floresta, encarando o Fortaleza (Foto: Arquivo Pessoal)

Wallace quando ainda jogava pelo Floresta, encarando o Fortaleza (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Com apenas 19 anos, Wallace mal acredita em tudo o que já conquistou. O garoto louco por futebol cresceu. A paixão pela bola aumentou. Um sonho após o outro, o meia vai escrevendo a própria história.

- Nas primeiras partidas pelo Floresta eu sempre chegava em casa sem acreditar. Às vezes eu estava em campo e em alguns momentos eu não acreditava que estava ali. A estreia pelo Fortaleza foi mais um sonho realizado. Campeonato Brasileiro em um time grande é muito emocionante!

- Eu até estava à vontade na estreia. Todos me deram muita confiança. Não fossem os escorregões... (risos). Mas o próximo sonho a ser realizado é subir com o Fortaleza para a Série A, com certeza! - completou.

As novas chuteiras serão providenciadas. O futebol certamente ficará mais vistoso. Como gente grande, Wallace almeja voos cada vez mais altos. A primeira rodada mal terminou e ele já projeta as últimas. Afinal, no mundo de Wallace, sonhar é permitido. Até porque aquela criança descalça, fascinada pela bola, um dia já sonhou em ser jogador de futebol.

Fonte- GE

 

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!